Gosto e reconhecimento

Outro dia o Bootsy Collins postou esse video no Facebook:

E o comentário que ele fazia – divertido, como de costume – era: “How far my Funkateers go back. Any body remember this guy & his band? Fill us all in on some education-4 the-Nation? Check out the The audience once u get a chance, air body jammin’! Tell us what u think…”

Para quem não está ligando o nome à pessoa, Bootsy Collins foi baixista da banda do James Brown durante talvez a fase mais importante e depois participou do Parliament/Funkadelic, além de ter seu trabalho solo. Além do mais, já que falei no JB, uma observação interessante que surgiu nos comentários à postagem do Bootsy foi que o Godfather e o Wayne eram amigos, sendo que o primeiro estimulou o segundo a formar essa banda (da qual, segundo dizem, ninguém menos que o Jaco Pastorius foi membro quando estava começando).

Mas o que me interessa nesse video não é tanto a discussão sobre funk verdadeiro e funk falso, sobre brancos se apropriando das formas culturais criadas pelos negros e se dando bem com isso – até porque, nesse caso pelo menos, o Wayne não se deu tão bem assim. O que me chama a atenção aqui é a dinâmica, mais geral, de reconhecimento; de que se gosta daquilo que preenche mais requisitos dentro do que já esperamos gostar ou já gostamos, mas de uma maneira mais complexa do que pode parecer a princípio. É interessante ver o video desse ponto de vista.

Alguém pode dizer “ah, mas qualquer imitação funciona assim”. Claro que é isso mesmo, mas vale a pena olhar e pensar, para além da qualificação de imitação, no que faz uma imitação que dar certo.

É um conjunto que depende de muitos elementos, mas que não basta um número x ou mais desses elementos. Há elementos-chave que precisam estar presentes e eles interagem com os outros, lançando luz uns sobre os outros e ajudando a caracterizar o fenômeno. Ao mesmo tempo, se os elementos são excessivamente parecidos com o “original”, perde-se a percepção de que é um outro artista e enquadramos como simples imitação, como “cover”…

É o que tende a acontecer nesse caso. Porém, como existe a questão racial de fundo, a coisa complica ainda mais, já que então por um lado existe o argumento de que um branco – a princípio hegemônico – está copiando aquilo que um negro – a princípio subalterno – fez, ainda por cima ganhando (algum) dinheiro com isso. Por outro lado, a questão racial tem elementos profundos que levam às associações que se costumou fazer entre negros e corporeidade, suingue, malemolência, sexualidade etc., o que dá um curto-circuito na imitação que o Wayne faz e leva a que vejamos o cara como meio ridículo, duro na dança, caricato etc.

O que valia fazer era investigar como ele era visto pelas plateias da época. Só assim daria pra pegar toda essa especulação aí de cima e ver o que se sustenta…

Deixo uma foto para fechar:

Foto de Vincenzo Marsden.
“This is Wayne Cochran & The C.C Riders on The Jackie Gleason Show.
Before you laugh, you should know that Wayne Cochran was from the same state and good friends with James Brown.
Brown inspired Cochran to form his own soul band Wayne Cochran & The C.C. Riders in tribute to Brown.
Not many southern white men embraced soul at the level that Cochran did, and that outlandish white man was funky, and could dance.
He’s known as “The White Knight Of Soul” & at 77 years young, he’s still with us today.
😎
Stay funky out there….” (Vincenzo Marsden)
(próximo texto dia 07/04)

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