Sobre os senhores Shorter e Hancock

“O mais velho é batata, diz tudo na exata…”

Diante dos shows do duo Wayne Shorter e Herbie Hancock o que mais se vê falar é que são dois veteranos, duas lendas, que Miles isso e Headhunters e Weather Report aquilo e fusion e jazz elétrico, Zawinul etc. e tal… Lembra-se muito do que os dois fizeram no passado sem dar tanta atenção ao que saiu depois. Prova disso é que no Rio de Janeiro, na última sexta-feira, 1 de Abril, antes do show começar, cheguei a ouvir gente falar em Cantaloupe Island. Depois, já com os dois no palco, olhar em volta às vezes me fazia lembrar do Monsieur Croche

O que me chamou a atenção foi que os dois parecem assumir uma postura bastante diferente no palco. O saxofonista dá a sensação de que resolveu encarnar o velho sábio, que só fala quando tem algo a dizer, enquanto Hancock é o cara legal, sempre com alguma tirada na ponta da língua, mas não necessariamente brilhante o tempo todo. Nesse contexto, ele soa até jovial, independentemente de quão dissonantes ou agressivos sejam os acordes que está tocando. Enquanto isso, Shorter fica lá ouvindo, procurando uma boa ideia. Assim, o pianista de certo modo domina a conversa, enquanto o outro parece que procura algo significativo para dizer…

Ora, quem gosta  e acompanha a carreira do Wayne Shorter certamente deve concordar que um dos aspectos mais interessantes dele como improvisador é a sensação de que ele sempre “diz algo” – mesmo no período do Weather Report, quando se contentava em dizer pouco. Tem vezes em que não acontece, mas parece ser sempre esse o objetivo: dizer algo. Essa apresentação com Herbie Hancock me deu a sensação de que agora, mais para o fim da vida, ele decidiu não fazer mais concessões. Acho interessante ver o sujeito optar por isso. Todo improvisador sabe como tocar algo que faça sentido mesmo que as ideias não estejam vindo, mas a sensação é que Shorter decidiu abrir mão precisamente disso. E então às vezes passam-se longos minutos no palco em que a coisa não engrena, quando eles “bem que procuram a cadência e não acham”, até que uma hora começa a acontecer música. As coisas belas só se dão a quem se dá a elas, diz a máxima pragmatista. Talvez seja esse o melhor espírito para quem vai assistir aquilo…

Sabe quando levamos um amigo a uma festa e esse amigo fica lá, presente nas rodas de conversa, mas meio lacônico? Nessas situações não é raro que nos sintamos impelidos a preencher o espaço falando mais, ainda que ao preço de nem sempre dizermos as coisas mais interessantes que temos pra dizer. Pior: podemos acabar fazendo nosso amigo falar menos ainda…

Herbie, você é legal – você é dos mais legais, aliás -, mas deixa o velho falar!

Um comentário sobre “Sobre os senhores Shorter e Hancock

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s