Black Mirror

A gente pensa que distopias despertam a atenção pro risco daquilo acontecer, mas acho que elas têm o efeito oposto. Black Mirror fez foi as pessoas acharem que é tudo fantasia, mesmo se o episódio do ranking social já está acontecendo na China.
https://www.wired.com/story/is-big-tech-merging-with-big-brother-kinda-looks-like-it/

Disponha

Para quem está tentando se achar no MuseScore: https://t.co/GlX8Lqsabt?amp=1

Computação (tentando ser) segura em 2018/2019

Prólogo

Escrevi esse texto em meu perfil do Facebook alguns meses atrás e, visto que algumas das questões abordadas estavam na ordem do dia, acabei mandando para outras pessoas por mensagens privadas e grupos. Conforme ia fazendo isso, fui editando e acrescentando mais informações e cheguei à versão que vai abaixo. De fato, acho que essas questões ainda estão e infelizmente vão continuar importantes por um bom tempo. Por isso decidi publicá-lo aqui, talvez até voltando a mexer nele se houver algo importante a acrescentar ou modificar.

***

Eu mais uma vez vou fazer o papel que venho fazendo há algum tempo já e chamar atenção para o que significa nós, do campo progressista, ficarmos reféns de plataformas privadas e fechadas como o WhatsApp. Ok, usemos. Mas tenhamos consciência de que, ao usarmos, estamos fortalecendo uma mega corporação que não tem o menor escrúpulo em admitir dentro da sua plataforma que se vendam serviços de envio em massa de mensagens, fazendo vista grossa para o uso que se faz desses serviços com a finalidade de influenciar eleições pelo mundo todo. O dinheiro a ser ganho aí é muito alto para que eles abram mão. Por isso, precisamente por isso, é que a gente tem que deixar plataformas como o Facebook e seus afiliados (WhatsApp, Instagram, Messenger) à míngua e usar serviços de código aberto, pois neles a gente tem algum controle sobre o que acontece ali. Alguns deles inclusive são criados sem fins lucrativos. Já falei e repito: há alternativas. Não precisamos voltar para o SMS

Um comentário extra: O WhatsApp não foi comprado, mas fez vista grossa para o esquema todo de disparo de mensagens em massa. Pra ser franco, acho que um aplicativo de mensagens que diz que tem o objetivo de conectar as pessoas não deveria sequer ter a possibilidade de empresas oferecerem dentro dele um serviço de mensagens em massa para propaganda. Mas, ok, o Facebook pagou uma fortuna pelo WhatsApp não foi à toa; ele quer fazer dinheiro de alguma maneira ali dentro (ele não vende as mensagens, mas ele quer que o serviço seja usado, por isso permite esse tipo de coisa, já que isso mantém a relevância da plataforma), então entendo que deixem as empresas fazerem isso por meio da plataforma deles, mas daí a deixar correr solto que mensagens desse tipo sejam enviadas, é de uma irresponsabilidade enorme. “Ah, mas é criptografado e eles não sabem o que é enviado”, alguém poderia retrucar. Primeiro, sendo código fechado, eles dizem que é criptografado, mas a gente não sabe (e para o modelo de negócio deles não é interessante que seja, vale lembrar, porque não dá para fazer data mining); em segundo lugar, se estivessem preocupados mesmo, controlariam que tipo de coisa é mandada: eles podem não olhar as msgs das pessoas, mas podem inspecionar por Inteligência Artificial mensagens comerciais, já que não são coisas pessoais. Por isso acho que deveríamos usar serviços que não pretendem fazer dinheiro ou que adotam um modelo mais transparente e menos pernicioso (na minha opinião, boa parte dos problemas que temos hoje online deriva desse modelo de negócios dependente de publicidade direcionada)

Pois bem, vamos a algumas alternativas. Vou dividir em várias seções e explico no título sobre o que cada uma é

*Software de código aberto*

Antes de tudo, uma explicação: por que eu fico falando tanto em código aberto? Quando vc pega um programa, vc normalmente recebe uma versão já compilada, que é, de maneira muito simplista, o programa já convertido em uma linguagem que o computador entende diretamente e que não faz muito sentido se a gente abrir e olhar. Quando a gente pega software livre ou de código aberto (open source), trata-se de um programa cujos desenvolvedores disponibilizaram o código fonte. Isso permite a gente abrir o programa e estudar, inspecionar e mesmo modificar, nos dando condições de saber exatamente o que ele faz e como faz. Imagina um carro; vc pode abrir o motor e desmontar aquilo, ver peça por peça, verificar como funciona, procurar falhas etc. No entanto um programa como o Windows é uma caixa preta. A gente não tem como saber o que ele faz ou deixa de fazer, porque não temos o código para ver e, por mais que existam empresas especializadas em ficar procurando falhas nesses programas, ninguém tem acesso ao código mesmo e muito menos existe uma agência reguladora ou algo do tipo que inspeciona o código dos programas para verificar se, por ex, eles não aproveitam que estão conectados à internet e mandam para outros lugares aqueles dados bancários que vc inseriu no site da Livraria Cultura. Por isso software de código aberto costuma ser muito mais seguro: todo mundo tem condições de olhar o código e procurar falhas e falcatruas nele ou propor modificações e melhorias.Na maioria das vezes a gente baixa a versão compilada e confia que os desenvolvedores simplesmente compilaram o mesmo código que deixaram disponível para nós (há meios de se verificar isso, mas nunca é 101%, então quem é mais paranóico pode simplesmente baixar o código fonte e compilar por conta própria).
Para mensagens (alternativas ao WhatsApp):
Signal – é o mais conhecido dentre os considerados realmente seguros. Até o Edward Snowden já andou recomendando. É desenvolvido por um grupo que tem à frente um sujeito bem famoso na área de criptografia chamado Moxie Marlinspike e que é o responsável pela criptografia considerada padrão da indústria – o WhatsApp mesmo (diz que) usa essa criptografia. Durante um tempo só o cliente (ou seja, o aplicativo que vc usa no seu telefone) era de código aberto, mas depois eles abriram o código do servidor tb, o que significa que é possível inspecionar como tudo funciona, por onde as mensagens passam, se há brechas e até (ao menos teoricamente) criar um serviço paralelo num servidor próprio. Recebeu no início desse ano uma doação generosa e deu um grau no desenvolvimento. Visualmente parece uma mistura do WhatsApp com o iMessage. Segundo eles declaram, o aplicativo não visa a lucro e é desenvolvido com o dinheiro levantado por meio do licenciamento da criptografia deles para outros programas e serviços.
Wire – também usa a criptografia do Signal; os clientes e o servidor são código aberto; é bem bonito e tal, um pouco diferente de todos os outros. Se não me engano, é desenvolvido por um dos criadores do Skype e tenta ganhar dinheiro se voltando mais para uso corporativo, com versão “pro” que oferece mais funcionalidades etc.
Telegram – é um aplicativo russo, mas é bloqueado lá porque, aparentemente, eles não se dão com o Putin. Em termos de funcionalidade é o que mais se parece com o WhatsApp e na verdade não fica devendo nada a ele, sendo bem mais leve e rápido. Até onde sei, só o cliente é de código aberto, o que já é bem melhor que o WhatsApp, que é todo fechado. Tem dois problemas sérios, no entanto: 1. a criptografia deles é meio de fundo de quintal: o que se questiona é por que os caras inventaram uma criptografia própria, sendo que não há sequer especialistas em criptografia na equipe de desenvolvimento (tem uma polêmica enorme e bastante instrutiva entre eles e o Moxie, basta procurar na internet);2. o aplicativo é bancado por um milionário russo que diz que queria fazer um aplicativo “for the people”; é ruim ficar duvidando das boas intenções das pessoas, mas é meio esquisito isso, ainda mais levando-se em conta que um sujeito pegou o código para inspecionar e, no meio de um monte de coisa ok, totalmente dentro do esperado, viu uma parte de código “ofuscada”, ou seja, escrita de uma maneira muuuito difícil de entender, o que é bem estranho levando-se em conta que é só ali.
Matrix/Riot.im – Matrix na verdade é um padrão (um “open standard”, como se diz) de comunicação que serve para mensagens instantâneas (como WhatsApp), VoIP (ligações de audio, como Skype), IoT etc. É um padrão aberto, como disse, e o objetivo é ser descentralizado, que é um conceito importante para essa discussão. Quando a gente usa o Facebook, ele é centralizado, já que existe um único lugar que todos nós acessamos (o site do FB) e tudo fica submetido à vontade de quem manda no FB. No Matrix, quem quiser pode implementar o padrão e criar seu próprio serviço (que é o que o governo Francês anunciou que ia fazer com ele para evitar ficar refém de WhatsApp e afins para suas comunicações internas). Eles oferecem alguns clientes já, como o Riot.im (o nome é sugestivo rs) ou o WeeChat (não confundir com WeChat, com um “e” só) e, na verdade, o Matrix é o melhor de todos esses em termos de segurança, independência, flexibilidade etc. O problema é que não é tão amigável num primeiro momento, já que vc tem que se registrar em algum servidor e então acessar a rede. O próprio cliente oferece acesso a outros serviços, como IRC
Redes sociais
Já houve mais opções, como Identi.ca, GNU Social etc. Agora basicamente existe o Mastodon, para onde toda a comunidade de software livre e open source está migrando – ainda mais com o anúncio do fim do Google+ (vai entender por que essas pessoas usavam aquilo…) e parece que o Diaspora* também andou ganhando força ultimamente, depois de quase ser abandonado.
Por isso vou falar basicamente do Mastodon. Ele, a princípio, era uma versão livre e de código aberto e, mais importante, descentralizada do Twitter. Tanto servidor como cliente(s) são código aberto. Há vários clientes justamente por causa disso: qualquer pessoa pode criar um cliente para acessar a rede.Além disso, como é descentralizado, qualquer pessoa pode criar um servidor com uma instância do Mastodon. Esse modelo se chama “federativo”, pois cada instância é como uma parte independente mas ao mesmo tempo se conecta à rede inteira, e às vezes se fala em “Fediverse” (de federativo e universe).No início parece complicado, mas é como email: eu posso ter email no Fastmail, outra pessoa no Gmail, outra ainda no Tutanota, outra no Outlook etc., mas todos nós conseguimos mandar emails uns para os outros. Pois então, eu posso ter uma conta numa instância do Mastodon, a mastodon.art, por ex, e consigo seguir e interagir com pessoas de todo o fediverse, ou seja, pessoas que tenham conta em qualquer outra instância (outro servidor do Mastodon) do fediverse. Ele funciona com três linhas do tempo, uma que a gente chama de “local”, que é onde aparecem as postagens das pessoas da sua instância; a outra linha do tempo é a das pessoas que eu sigo, seja lá em qual instância elas tenham conta; e, por fim, a linha do tempo “federada”, que acessa todo o fediverse, mas como seria uma coisa insana de tanta gente ela na verdade mostra só as pessoas do fediverse que são seguidas por alguém que faça parte da sua própria instância.Isso parece mais arbitrário do que é, na realidade. Em primeiro lugar, como ele não monetiza os dados dos usuários, ele não escolhe nem hierarquiza o que vai aparecer na sua linha do tempo; aparece tudo em ordem cronológica simplesmente, o que já aumentaria a quantidade de postagens para vc ver. Em segundo lugar, as instâncias tendem a ser temáticas ou ao menos ter algo que aproxime as pessoas que estão ali em algum sentido, então teoricamente as pessoas seguidas pelas pessoas da sua instância teriam mais chances de te interessar do que quaisquer outras pessoas aleatórias. É bem comum, aliás, pessoas terem conta em mais de uma instância porque têm interesses diversos. Eu mesmo tenho umas cinco contas em instâncias diferentes, mas queria fechar em uma só e seguir todo mundo por lá. O problema é que sinto falta das linhas locais.
Micro.blog – é o que o nome diz literalmente, um micro blog, um pouco no modelo do Twitter tb. A vantagem é que é baseado em open standars da própria World Wide Web e vc pode usar qualquer coisa, como um blog gratuito do WordPress, por exemplo, e fazer parte da rede. Tudo que se posta pode ser encontrado por uma simples busca no Google (ou no DuckDuckGo), já que é como um blog mesmo. Isso significa que não se está preso a um “jardim murado”, como no Facebook, que faz com que, para alguém ler aquele textão maneiro que vc escreveu sobre a situação do Brasil e do mundo, a pessoa tenha que ter uma conta no FB. No caso do Micro.blog não. Até um tempo atrás só se entrava com convite, não sei como está agora. Se alguém quiser, ainda tenho alguns convites para dar. Acho que é uma boa ideia, mas uso pouco na prática. Dá para interagir com as pessoas como se fosse no Twitter e, além disso, funciona como um Instagram também, pois dá para postar fotos. Muita gente usa assim
Email
Há várias alternativas. Não estou mais com disposição para ser tão detalhado e, além do mais, email não tem tanto mistério e nem é tão crítico nos dias de hoje quanto os serviços/aplicativos que comentei acima. Vou só mencionar os que eu pessoalmente uso ou testei.
ProtonMail – criptografado, seguro; demanda que se use o aplicativo deles para que seja de fato seguro. É pago se for usar uma conta de mais de 500MB, se não me engano, já que eles não ganham dinheiro com seus dados.
FastMail – mesma coisa que o Proton, mas não necessita do aplicativo. É consideravelmente mais barato e não é para paranoicos como o outro, mas é mais que suficiente para nós, pessoas normais. Dá para usar domínio próprio, permitindo que se fique com aquele email bacana estilo “contato@meunome.com”. Oferece uma suíte de aplicativos e aplicativo de fotos, mas claro que não vai ser no nível do Google Photos, que é proposta sinistra de vender a alma mesmo.
Tutanota – criptografado, teoricamente seguro, diz que não escaneia nossos emails, mas o fato de ser gratuito me deixa meio desconfiado. Funciona bem.
KollabNow – mais ou menos o mesmo esquema do FastMail. Se não me engano, permite que vc crie seu próprio servidor de email, mas acho que não vale o esforço
Busca – alternativas ao Google
DuckDuckGo – é o que uso. Não vai ser tão preciso quanto o Google, claro, já que não usa seus dados. Tem horas em que eu uso o Google mesmo, caso precise algo mais específico, mas evito ao máximo.
StartPage – mesma proposta do DDG
Armazenamento na nuvem – alternativas ao Dropbox e afins
SpiderOak – dizem que é seguro; é focado em privacidade e tal, mas a verdade é que é tudo hospedado no servidor deles, então a gente tem que confiar.
Tresorit – mesma coisa que o anterior
NextCloud – isso, sim, é interessante: é uma espécie de Dropbox que vc mesmo administra e hospeda (o termo que se usa é “self-hosted”). Vc cria um servidor, seja em uma hospedagem paga (um servidor em algum data center ligado 24/7), seja um servidor na sua própria casa (um computador velho ou um Raspberry Pi da vida) e deixa ligado direto e acessa de onde quiser. Tem aplicativo pro smartphone e também uma série de programas dentro dele que vc instala como se fossem extensões (notas, fotos, processador de textos, planilhas etc.). Como é código aberto, a comunidade cria aplicativos para ele.
SeaFile – mesmo esquema do NextCloud, mas um pouco mais simples. Funciona bem também. Achei mais fácil de instalar, mas o outro é mais “poderoso” rs.
SyncThing – bem interessante; uso bastante. Não tem servidor centralizado. Simplesmente sincroniza uma (ou várias) “pasta(s)” do seu computador com outros computadores (ou smartphones). É criptografado e seguro e, como não tem servidor central, é bem mais difícil de ser “hackeado”, já que não está em algum “lugar”. Bastante fácil de instalar e começar a usar.
Navegador – alternativas ao Google Chrome – o navegador do mal rs (se vc não sabe por que o Chrome é um problema, só te lembro que ele é desenvolvido pelo Google, que vive de analisar tudo que vc faz na Internet e montar um perfil cada vez mais detalhado de vc a partir disso)
Firefox – é o clássico. Andou com má fama uns anos atrás porque estava pesado, essas coisas. As pessoas ficaram com essa ideia dele, mas principalmente depois dessa versão Quantum voltou a ser um ótimo navegador. Tem uma penca de extensões para ele que permitem controlar tudo da sua navegação. Se vc souber que extensões instalar (indico algumas no fim) e como configurar, é o navegador mais seguro dentre os não paranoicos. É código aberto e serve de base para vários outros.
Tor – é o navegador para quem quer anonimato a todo custo – o que não é exatamente o mesmo que privacidade. Costuma ser muito lento, porque funciona dividindo os pacotes de dados que vão e voltam na sua navegação e passando por nós em vários locais do mundo simultaneamente (desculpem aí a explicação meio tosca, olhem o quanto já escrevi rs). Chama-se Tor porque é The Onion Router, ou seja, ele roteia seu tráfego como se fosse pelas camadas de uma cebola, por isso não é possível localizar onde vc está. É interessante, útil e importante e inclusive a gente devia usar um pouco sempre para normalizar um pouco o uso dele, evitando que pessoas que realmente precisam usar por questões de segurança sejam visadas e estigmatizadas naquele esquema “só usa isso quem está fazendo algo errado”. É por meio do Tor que se acessa a Dark/Deep Web e, além de ser lento, muitos sites convencionais meio que piram quando vc acessa por meio do Tor, às vzs ate bloqueando seu tráfego. Não é a coisa mais simples de se começar a usar, mas tb não é nenhum bicho de sete cabeças. É baseado no Firefox.
Chromium – é a parte de código aberto do Chrome. É desenvolvido pela comunidade de software livre e código aberto com uma força do Google, mas como essa parte é toda aberta, dá para confiar. Dá para fazer com ele quase tudo que se faz com o Chrome – até sincronizar sua navegação com o Chrome para smartphone, mas quando vc faz isso vai começando a deixar o Google se meter na sua vida. De qualquer modo, é melhor que usar o Chrome em si, com aquele monte de penduricalhos e spyware que o Google coloca nele.
Brave – é baseado no Chromium e propõe ser rápido e economizar dados. Foi criado por um sujeito que trabalhou antes na Mozilla (que faz o Firefox). É bem rápido mesmo e mostra tudo que ele bloqueou para vc ver quanto economizou de dados (um detalhe interessante: segundo um relatório da Mozilla, em torno de 40% do que vc baixa de dados quando está navegando na Internet é publicidade e coisas relacionadas). Estão propondo um esquema de vc depositar um dinheiro na sua conta com eles e então eles, de acordo com os sites que vc visita etc., decidem como dividir aquele dinheiro, financiando a Web sem precisar de publicidade. Acho válido procurar essas alternativas, mas não sei bem se vai ser desse jeito – vale ler o Who Owns the Future, do Jaron Lanier, para pensar nesse assunto.
No fim das contas, uso o Firefox mesmo e deixo o Chromium para quando preciso de algo que não funcionou no FF, já que o Chrome/ium é o padrão. Algumas extensões que vale usar no Firefox para dar alguma segurança e controle são Privacy Badger, Cookie AutoDelete (que apaga os cookies automaticamente quando vc fecha a aba ou quando fecha o navegador, de acordo com a sua pref – te deixa tb colocar alguns sites na “lista branca”) e Multi-Account Containers, que permite criar conteiners fixos dentro dos quais determinados sites abrem. Assim, eu tenho um conteiner para tudo que é do Google, da busca ao YouTube e Gmail e ele fica isolado lá, evitando que o Google rastreie as outras coisas que faço em outros sites (porque eles fazem isso, todo mundo faz, caso não saibam – o Privacy Badger ajuda a conter isso um pouco tb). Tenho conteiners específicos para Google, Facebook, Twitter e Amazon, ficando cada um isolado sem poder ver os outros. Todo o resto abro sem conteiner e o Cookie Auto-Delete limpa assim que fecho a aba em questão.
Sistema Operacional
Essa é difícil e vou só falar umas coisas rápidas:
Windows, principalmente o 10 – a gente sabe com certeza que “telefona pra casa” (manda informações suas para a “base”, no caso a Microsoft) o tempo todo; mandando inclusive bem mais do que seria aceitável (como estatísticas de uso e relatórios de erros). Basta procurar no Google (ou no DuckDuckGo, agora todo mundo já conhece rs) algo como “Windows 10 spyware” que vcs vão ver. Tem para todos os níveis e gostos de teoria da conspiração, mas os mais moderados já mostram que o negócio é sério.
masOS – bem mais comedido que o Windows, mas é código fechado até a medula, então a gente não tem como saber direito o que acontece lá dentro. Sabe-se que “telefona pra casa” bem pouco – porque isso dá para medir – e ficaria mal para a Apple, que anda levantando essa bandeira da privacidade, se se descobrisse o contrário. De qualquer maneira, há que se confiar cegamente.
Eu uso Linux, que é código aberto. Não vou escrever sobre isso aqui senão vou passar o resto da noite. Qualquer dúvida perguntem. Dá para instalar no Mac tb, então não tem desculpa (aliás, escrevi tudo isso aqui em um Macbook Pro muito velho (2008) que foi ressuscitado graças a um coquetel de SSD e Ubuntu Mate).
ChromeOS – desenvolvido pelo Google. Preciso falar algo?
Android – idem, mas em termos de dispositivos móveis a situação é crítica mesmo e não tem muito para onde correr. A única alternativa é, se o seu smartphone for suportado, instalar uma ROM alternativa, isto é, uma versão alternativa do Android que, espera-se, seja um pouco menos barra pesada – pois o Android tem uma base open source e em cima dela o Google coloca as coisas deles lá. Eu estou testando o LineageOS, que é uma das ROMs mais estáveis, mas admito que instalar uma outra ROM no telefone é meio tenso.
iOS – mesma situação do macOS, mas mais fechado ainda.
Existem ainda alternativas ao Android, que por ter uma base de código aberto, permite que pessoas peguem essa base e construam algo em cima. Há várias razões técnicas para a maioria dessas alternativas não funcionar tão bem (em linhas muito gerais, o hardware dos smartphones é muito mais “fechado” e varia muito mais de acordo com o fabricante que o dos computadores, logo é muito difícil fazer um sistema que funcione bem com eles) quanto a versão do Android (Apple é um caso perdido nesse aspecto) que veio no seu telefone, mas há o Lineage OS, que funciona com alguns aparelhos específicos (no site deles tem uma lista e dá para ver se, por acaso, o aparelho que vcs têm no bolso funciona com ele); é amplamente considerado a melhor ROM alternativa para Android.Nunca é muito fácil de instalar, mas se alguém quiser tentar, estamos aí. Mais algumas alternativas:Sailfish OS – funciona em muito poucos aparelhos, mas parece ser muito bom. Nunca usei nem vi pessoalmente alguém usando.Copperhead OS – era a versão mais segura de todas, mas funcionava basicamente com telefones Google Pixel e os desenvolvedores brigaram, interrompendo o andamento normal do projeto. Parece que pegaram o código e fizeram uma alternativa chamada Rattlesnake OS, mas não consegui achar muita coisa a respeito ainda.Plasma Mobile – está em desenvolvimento e pode vir a ser um bom.Ubuntu Touch – era a versão do Ubuntu (distribuição Linux) para smartphones. Foi abandonado pela empresa que faz o Ubuntu (a Canonical, que deixou de ver viabilidade comercial no projeto de um sistema para smartphones) e a comunidade pegou para continuar desenvolvendo (pois é, né, software livre… aí vcs começam a entender como essas coisas são importantes, como elas que convergem com os nossos interesses) e está caminhando bastante bem, mas ainda não está totalmente pronto. Funciona também só em alguns aparelhos específicos.

Back here after a long while out of the loop. Hope everyone is doing fine 🙂

Sobre os senhores Shorter e Hancock

“O mais velho é batata, diz tudo na exata…”

Diante dos shows do duo Wayne Shorter e Herbie Hancock o que mais se vê falar é que são dois veteranos, duas lendas, que Miles isso e Headhunters e Weather Report aquilo e fusion e jazz elétrico, Zawinul etc. e tal… Lembra-se muito do que os dois fizeram no passado sem dar tanta atenção ao que saiu depois. Prova disso é que no Rio de Janeiro, na última sexta-feira, 1 de Abril, antes do show começar, cheguei a ouvir gente falar em Cantaloupe Island. Depois, já com os dois no palco, olhar em volta às vezes me fazia lembrar do Monsieur Croche

O que me chamou a atenção foi que os dois parecem assumir uma postura bastante diferente no palco. O saxofonista dá a sensação de que resolveu encarnar o velho sábio, que só fala quando tem algo a dizer, enquanto Hancock é o cara legal, sempre com alguma tirada na ponta da língua, mas não necessariamente brilhante o tempo todo. Nesse contexto, ele soa até jovial, independentemente de quão dissonantes ou agressivos sejam os acordes que está tocando. Enquanto isso, Shorter fica lá ouvindo, procurando uma boa ideia. Assim, o pianista de certo modo domina a conversa, enquanto o outro parece que procura algo significativo para dizer…

Ora, quem gosta  e acompanha a carreira do Wayne Shorter certamente deve concordar que um dos aspectos mais interessantes dele como improvisador é a sensação de que ele sempre “diz algo” – mesmo no período do Weather Report, quando se contentava em dizer pouco. Tem vezes em que não acontece, mas parece ser sempre esse o objetivo: dizer algo. Essa apresentação com Herbie Hancock me deu a sensação de que agora, mais para o fim da vida, ele decidiu não fazer mais concessões. Acho interessante ver o sujeito optar por isso. Todo improvisador sabe como tocar algo que faça sentido mesmo que as ideias não estejam vindo, mas a sensação é que Shorter decidiu abrir mão precisamente disso. E então às vezes passam-se longos minutos no palco em que a coisa não engrena, quando eles “bem que procuram a cadência e não acham”, até que uma hora começa a acontecer música. As coisas belas só se dão a quem se dá a elas, diz a máxima pragmatista. Talvez seja esse o melhor espírito para quem vai assistir aquilo…

Sabe quando levamos um amigo a uma festa e esse amigo fica lá, presente nas rodas de conversa, mas meio lacônico? Nessas situações não é raro que nos sintamos impelidos a preencher o espaço falando mais, ainda que ao preço de nem sempre dizermos as coisas mais interessantes que temos pra dizer. Pior: podemos acabar fazendo nosso amigo falar menos ainda…

Herbie, você é legal – você é dos mais legais, aliás -, mas deixa o velho falar!

Gosto e reconhecimento

Outro dia o Bootsy Collins postou esse video no Facebook:

E o comentário que ele fazia – divertido, como de costume – era: “How far my Funkateers go back. Any body remember this guy & his band? Fill us all in on some education-4 the-Nation? Check out the The audience once u get a chance, air body jammin’! Tell us what u think…”

Para quem não está ligando o nome à pessoa, Bootsy Collins foi baixista da banda do James Brown durante talvez a fase mais importante e depois participou do Parliament/Funkadelic, além de ter seu trabalho solo. Além do mais, já que falei no JB, uma observação interessante que surgiu nos comentários à postagem do Bootsy foi que o Godfather e o Wayne eram amigos, sendo que o primeiro estimulou o segundo a formar essa banda (da qual, segundo dizem, ninguém menos que o Jaco Pastorius foi membro quando estava começando).

Mas o que me interessa nesse video não é tanto a discussão sobre funk verdadeiro e funk falso, sobre brancos se apropriando das formas culturais criadas pelos negros e se dando bem com isso – até porque, nesse caso pelo menos, o Wayne não se deu tão bem assim. O que me chama a atenção aqui é a dinâmica, mais geral, de reconhecimento; de que se gosta daquilo que preenche mais requisitos dentro do que já esperamos gostar ou já gostamos, mas de uma maneira mais complexa do que pode parecer a princípio. É interessante ver o video desse ponto de vista.

Alguém pode dizer “ah, mas qualquer imitação funciona assim”. Claro que é isso mesmo, mas vale a pena olhar e pensar, para além da qualificação de imitação, no que faz uma imitação que dar certo.

É um conjunto que depende de muitos elementos, mas que não basta um número x ou mais desses elementos. Há elementos-chave que precisam estar presentes e eles interagem com os outros, lançando luz uns sobre os outros e ajudando a caracterizar o fenômeno. Ao mesmo tempo, se os elementos são excessivamente parecidos com o “original”, perde-se a percepção de que é um outro artista e enquadramos como simples imitação, como “cover”…

É o que tende a acontecer nesse caso. Porém, como existe a questão racial de fundo, a coisa complica ainda mais, já que então por um lado existe o argumento de que um branco – a princípio hegemônico – está copiando aquilo que um negro – a princípio subalterno – fez, ainda por cima ganhando (algum) dinheiro com isso. Por outro lado, a questão racial tem elementos profundos que levam às associações que se costumou fazer entre negros e corporeidade, suingue, malemolência, sexualidade etc., o que dá um curto-circuito na imitação que o Wayne faz e leva a que vejamos o cara como meio ridículo, duro na dança, caricato etc.

O que valia fazer era investigar como ele era visto pelas plateias da época. Só assim daria pra pegar toda essa especulação aí de cima e ver o que se sustenta…

Deixo uma foto para fechar:

Foto de Vincenzo Marsden.
“This is Wayne Cochran & The C.C Riders on The Jackie Gleason Show.
Before you laugh, you should know that Wayne Cochran was from the same state and good friends with James Brown.
Brown inspired Cochran to form his own soul band Wayne Cochran & The C.C. Riders in tribute to Brown.
Not many southern white men embraced soul at the level that Cochran did, and that outlandish white man was funky, and could dance.
He’s known as “The White Knight Of Soul” & at 77 years young, he’s still with us today.
😎
Stay funky out there….” (Vincenzo Marsden)
(próximo texto dia 07/04)

Ler música (e tocar lendo)

Ao que parece, a coisa sempre funcionou. De uma maneira ou de outra, desde muito tempo, pessoas se juntam para tocar – em geral música de concerto, nesse caso – e vão lendo, cada uma sua partitura, virando suas páginas conforme é necessário e a coisa sai. Então qual o problema que isso aqui propõe resolver?

Sinceramente, não sei… Acho que, potencialmente, abre espaço para repertórios mais complexos (ainda) do que temos agora, pois quem rege controla totalmente a virada de páginas, desobrigando quem está com o instrumento na mão de ter que cuidar disso.

A pergunta, no entanto, é: estamos buscando repertórios ainda mais complexos? Mais uma vez, não sei. Acho que a música tende atualmente a caminhar em outras direções.

Não falo de simplificação, não é isso – até porque nesse aspecto são muitas as direções simultâneas que vejo serem tomadas -, mas tenho a impressão de que, se a noção de vanguarda ainda faz algum sentido, ela há algum tempo já não aponta para o complexo, mas para a exploração do domínio sonoro.

De qualquer maneira, o programa não fala em nenhum momento de qualquer coisa que ele possa oferecer para a execução musical além do que já se tinha pelo método “analógico”, isto é, o braço…

  • próximo texto em 10/03/16

Um comentário rápido sobre o Grammy

Tem sido quase um lugar-comum dizer que nos últimos anos houve um movimento do indie/alternativo/leftfield em direção ao mainstream, fazendo com que o pop atual soe muito próximo com aquilo que antes estaria fora dele.

Em primeiro lugar, vale lembrar que essa é uma tendência comum, presente em certo grau em quase todas as épocas da história da música popular urbana. Em segundo lugar, é inegável que há uma proximidade muito grande no som entre o pop atual e muita coisa que se entenderia como indie ou alternativa hoje.

Peguemos como exemplo o último disco da Kimbra. Em geral vista como fora do mainstream – claro, teve a música com o Gotye, mas isso não parece ter afetado tanto a produção dela -, não fosse por certo “destemor” em aproximar e até fazer se chocarem diferentes elementos, o último disco soaria como muita coisa do pop atual.

Sugar Lies, por exemplo, soa tão diferente de muita coisa pop por aí?

É claro que dificilmente alguém iria ouvir aquilo e pensar que é Taylor Swift, mas o que me parece é que atualmente é o indie que está chegando cada vez mais perto do mainstream, e não o contrário…

Mas se a caminhada do alternativo pro mainstream é um movimento comum, como sei que não é isso que está acontecendo agora? Como sei que não é o pop absorvendo o indie mais uma vez? Meu palpite é que, primeiro, o indie atual tem um apelo imediato, uma coisa de dar a quem ouve exatamente o que se espera, e isso, a meu ver, seria típico do pop. Nem na sonoridade, nos “timbres” – onde o alternativo dos anos 90 mais claramente se afastava do mainstream, com aquela sonoridade “de garagem”, como se dizia na época -, isso acontece mais – até porque houve um salto considerável em relação aos anos 90 quanto ao que se consegue fazer hoje em dia num home studio. Em segundo lugar – e mais importante -, eu arriscaria dizer que artistas alternativos surgidos depois dessa sonoridade atual do pop continuam soando como aqueles que inventaram essa sonoridade, em vez de romper com ela por ela ser mainstream.

Por exemplo, a Lorde, estrela do Grammy de uns dois anos atrás e de quem já não se fala mais tão frequentemente, é mainstream ou indie? Me pergunto se a questão se resume à capacidade técnica de um home studio atual…

A ver o que vai acontecer nos próximos anos.

Um disco inteiro em fevereiro

Existe uma coisa chamada FAWM, February Album Writing Month, uma ideia que surgiu quando um sujeito chamado Burr Settles, ao concluir um livro pro National Novel Writing Month (NaNoWriMo) resolveu chamar mais dois conhecidos para o desafio de comporem, cada um, 14 músicas durante os 28 dias de fevereiro de 2004. Segundo a Wikipédia, como o fuso horário dos três não coincidia, eles criaram um blog para se manterem a par do processo – talvez “sincronizar” fosse uma palavra mais in pra se usar aqui – e se motivarem uns aos outros.

Conforme a ideia foi se espalhando na base do boca a boca virtual, mais gente se interessou em participar do “desafio” e a coisa cresceu até se tornar o que é hoje, com site, network pra pessoas que nem se conhecem começarem a interagir e cooperar e diversas variações, tais como o RPM Challenge – que propõe que se grave um disco de dez faixas no período -, o National Solo Album Month (NaSoAlMo) etc.

Daí sai muita coisa para pensar, desde o efeito sobre o impulso criador de uma auto-imposição deste tipo até as formas de cooperação que estão surgindo o tempo todo (vide minha postagem anterior), passando ainda, por exemplo, pela maneira como profissionais da área criativa organizam seu volume de trabalho e lidam com isso… Vou me contentar em, pelo menos por ora, só levantar a bola, mas é muito pano para manga mesmo (com direito a aliteração e tudo)…

Seja lá o que for que vai ser produzido, acho que a ideia geral é boa para fazer a gente se mexer e colocar a vida para andar. Pra quem é acadêmico, poderia até ser lançado o desafio de seis artigos ao longo de um ano. Alguém banca?

Site do FAWM:

http://fawm.org