Ainda outro texto elogiando markdown

A internet está cheia de textos que advogam em favor do uso de markdown para todas as formas de texto produzido por computador. Todos os que conheço, no entanto, estão em sites ligados a tecnologia e programação. Por essa razão, acho que é relativamente improvável que meus colegas acadêmicos venham a tomar conhecimento deles.

Sendo assim, achei que valia escrever um texto rápido explicando por que esse assunto poderia ser de interesse para nós, que estamos nessa profissão de produzir textos que apenas pessoas dentro de uma comunidade bastante restrita e especializada vão ler.

Minha impressão é de que maioria de nós usa o Microsoft Word e quem se acha mais moderninho usa Google Docs. Pois bem, vou poupar vocês da ladainha sobre os problemas de se usar os serviços do Google, deixado esse assunto para depois, e vou falar só de duas coisas: (1) manter seus arquivos “na nuvem” e (2) formatos de arquivo.

O primeiro é simples: escrevemos nossos trabalhos com o maior esmero e ficamos com a cabeça tranquila porque o programa salva automaticamente no Google Drive ou no OneDrive. Assim a gente sabe que existe um backup lá e que tudo está bem.

Ora bolas, primeiro que se você faz uma bobagem com o arquivo ele imediatamente é atualizado na tal nuvem e aí você depende do “undo” dele para tentar recuperar o que tinha antes. Não é um grande problema a maior parte do tempo, mas pode ser em alguns casos – ainda mais porque nem sempre o undo funciona como esperado.

Mais sério é se acontece algum problema com o serviço que está armazenando seus arquivos. É raro, mas acontece. Em 2010, se não me engano, um dia acordei e meu Gmail não tinha nenhum email. Se alguém duvidar, pode procurar na internet as notícias a respeito. Aconteceu com um monte de gente e aparentemente foi um erro na hora de migrarem dados de todas as contas criadas em determinado período entre servidores. O próprio Google se pronunciou e disse que nada estava perdido definitivamente e que nas semanas seguintes os dados seriam recuperados – o que de fato aconteceu -, mas foi um susto enorme (até porque na época eu usava o Gmail como backup de textos meus, naquele esquema tosco de mandar um email para mim mesmo com o arquivo que estava escrevendo ao fim de cada dia de trabalho) e poderia acontecer de não conseguirem recuperar.

Existe aquela frase: “there is no cloud, it’s just someone else’s computer”. É a mais pura verdade, porque tudo que acontece com seu próprio computador pode acontecer na nuvem também. Claro que o Google tem lá trocentos backups em data-centers espalhados pelo mundo, então se falha um, tem outro. Mas se a gente lembrar que esses servidores são sincronizados justamente para que não se percam dados se algo acontecer, o risco existe que, dando problema, justamente ou se sincronize o problema ou se perca a versão mais recente, que foi onde aconteceu a falha.

Agora a segunda questão, a dos formatos proprietários. Essa é bem mais interessante. Todo mundo já passou por isso: você tem lá sua versão atualizada do Word e manda um arquivo para alguém que, pobre dessa pessoa, não tem a última versão e acaba não conseguindo abrir ou só abre em algum modo de compatibilidade mandrake que bagunça formatação, muda tamanho de letra, esculhamba as notas de rodapé e sabe lá mais o que faz. Acontece também com a gente mesmo – e aqui que me irrita mais: a gente pega aquela versão preliminar da nossa qualificação que ficou lá guardada da época do doutorado, meio na esperança de reciclar uns argumentos para um artigo sobre a tese e acaba passando a tarde toda só para tentar fazer aquilo ficar com uma aparência decente. E isso porque o mundo usa o Word há anos já, pois quem pegou a passagem dos WordPerfects, Wordstars e Chi-Writers da vida para o Word encarou problemas bem mais sérios como simplesmente não ter como abrir seus arquivos antigos. Acontece até hoje com um monte de programas: tenho uma penca de músicas que fiz no antigo Cakewalk, que salvava em WRK, e não consigo mais abrir.

É aqui que o Markdown importa mesmo, já que, se você escrever em Markdown, mas continuar confiando cegamente na “nuvem” o problema de arriscar perder seus arquivos vai continuar existindo. Markdown é uma forma de marcar o texto para indicar sua formatação que ao mesmo tempo não polui o texto, fazendo com que ele possa ser lido em sua forma “bruta” sem nenhum problema, e que é tão simples que não requer nada além do chamado plain-text.

Plain-text é o formato mais básico de texto que existe. Não tem tamanho de fonte – não tem nem fonte diferente! -, não tem recuo de linha, não tem negrito ou itálico, não tem nada. É aquele texto estilo terminal de computador antigo e, por isso, abre em virtualmente qualquer computador. É meio que um formato à prova do tempo e, como não tem nada nele a não ser os caracteres básicos, é um arquivo muito pequeno. Os arquivos em plain-text que a gente mais encontra pela frente são aqueles .TXT que acompanham os arquivos de origem duvidosa que às vezes vocês baixam quando querem ver um filme específico e ele não está no Netflix – se bem que ouvi dizer que a juventude de hoje em dia nem sabe mais baixar torrent…

Enfim, o Bloco de Notas do Windows é um editor de textos que salva em plain-text. É nesse formato de arquivo que se salva os textos em Markdown e então podemos converter depois para outros formatos como DOC, PDF etc. Essa conversão eu faço com um programa chamado Pandoc (ganha um prêmio quem deduzir o significado do nome) e as pessoas nem ficam sabendo que o texto não foi escrito no Word.

Bem, mas então agora eu tenho que pelo menos apresentar um pouco de Markdown. Algumas pessoas vão reconhecer porque o WhatsApp hoje me dia usa uns elementos dele.

Para ênfase, se usam asteriscos antes e depois do trecho a ser destacado. Um asterisco antes e outro depois para itálico, dois asteriscos para negrito, três para itálico e negrito: *itálico*, **negrito** e ***ambos***.

Títulos, cabeçalhos ou simplesmente fontes maiores se fazem usando # antes do parágrafo começar. Assim:

# Título enorme, em geral centralizado

## Menor um pouco

### Ainda menor

#### e por aí vai

Como se pode ver, também dá para fazer um recuo para destacar um bloco de texto. Isso se faz colocando > no início do parágrafo.

Tem mais um monte de coisas e existem sub-tipos de markdown para finalidades específicas. O Pandoc converte praticamente todos eles e coloca do jeito que for preciso para o tipo de arquivo que vc quer produzir, inclusive respeitando os esquemas de citação que você indicar – porque, sim, dá para colocar referências numeradas em Markdown também.

Para uma explicação mais completa dos recursos do Markdown, tem links na seção de links do site. No início parece complicado, um monte de coisas para lembrar, mas – podem acreditar – é na verdade bem prático e rápido. Você escreve tudo sem tirar as mãos do teclado, sem precisar procurar comandos em menus ou naquele Ribbon nojento das versões recentes do Office. Markdown é vida…